Programas de fidelidade em 2026: ainda compensam ou viraram vitrine de marketing?

Pontos, milhas e cashback ainda valem a pena, desde que o consumidor faça as contas antes de gastar

Escrito em maio 20, 2026 | Autor: Ivan Martins
Programas de fidelidade em 2026: ainda compensam ou viraram vitrine de marketing?

Os programas de fidelidade em 2026 estão em um momento curioso. Por um lado, nunca foi tão fácil acumular pontos, milhas, cashback, descontos e benefícios em compras do dia a dia. Por outro, nunca foi tão necessário fazer conta antes de aceitar qualquer promessa bonita estampada no aplicativo do banco, no cartão de crédito ou no site de uma companhia aérea.

Durante muito tempo, a lógica parecia simples: usar cartão de crédito, acumular pontos, transferir para uma companhia aérea e emitir uma passagem. Entretanto, o mercado mudou bastante.

Hoje, os programas de fidelidade entraram em farmácias, supermercados, postos de combustível, marketplaces, aplicativos de delivery, bancos digitais, carteiras digitais e clubes de assinatura.

Assim, o consumidor passou a ver ofertas o tempo todo: “ganhe pontos em dobro”, “junte milhas mais rápido”, “resgate produtos”, “assine o clube e viaje melhor”.

Só que, como quase tudo em finanças pessoais, a resposta não cabe em uma frase. Programas de fidelidade ainda podem compensar, sim. Porém, eles deixaram de ser uma vantagem automática.

Em muitos casos, funcionam muito mais como ferramenta de marketing do que como benefício financeiro real. Portanto, a pergunta certa não é apenas “esse programa dá pontos?”. A pergunta mais importante é: “quanto esses pontos valem de verdade para mim?”.

Além disso, é preciso observar um detalhe que muita gente ignora: fidelidade boa é aquela que acompanha um consumo que você já teria.

Quando o programa começa a empurrar compras desnecessárias, anuidade cara, clube mensal sem uso ou troca ruim de pontos, o benefício deixa de ser benefício e vira custo disfarçado.

O mercado de fidelidade cresceu, mas isso não significa vantagem automática

O crescimento do setor mostra que os programas de fidelidade continuam fortes. Segundo dados da ABEMF, os programas ligados à associação fecharam 2024 com faturamento de R$ 21,9 bilhões, enquanto os brasileiros acumularam 920,6 bilhões de pontos ou milhas ao longo do ano.

No mesmo período, os resgates chegaram a 803,5 bilhões de pontos ou milhas. Já no primeiro trimestre de 2025, os consumidores acumularam 225,4 bilhões de pontos ou milhas, com crescimento de 16,6% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Esse avanço mostra duas coisas ao mesmo tempo. Primeiro, o consumidor brasileiro aprendeu a olhar para os benefícios. Segundo, as empresas perceberam que fidelidade vende, retém clientes e aumenta a frequência de compra. Portanto, não estamos falando de um mercado pequeno ou improvisado. Estamos falando de uma estratégia cada vez mais profissionalizada.

No entanto, justamente por isso, o consumidor precisa ficar mais atento. Afinal, quanto mais sofisticado fica o programa, maior também pode ser a dificuldade de comparar valores. Às vezes, o aplicativo mostra muitos pontos, muitas categorias, muitos selos e muitas missões. Porém, quando chega a hora de resgatar, o preço em pontos pode não ser tão vantajoso.

O que os dados recentes mostram sobre fidelidade, cartões e viagens

Indicador recente Dado observado O que isso indica para o consumidor
Faturamento dos programas ligados à ABEMF em 2024 R$ 21,9 bilhões O setor cresceu e virou parte importante da estratégia de bancos, varejo e companhias aéreas.
Pontos/milhas acumulados em 2024 920,6 bilhões Há mais oportunidades de acúmulo, mas também mais estímulos ao consumo.
Pontos/milhas resgatados em 2024 803,5 bilhões Os consumidores estão usando mais seus saldos, o que reduz a chance de pontos parados.
Taxa média de pontos expirados em 2024 13% Mesmo com queda, ainda existe perda relevante por falta de planejamento.
Destino dos resgates em 2024 76,5% para passagens aéreas e 23,5% para produtos/serviços As passagens seguem fortes, mas o varejo ganhou espaço nos resgates.
Valor movimentado por cartões em 2025 R$ 4,5 trilhões O cartão continua central no acúmulo de pontos, especialmente no crédito.
Passageiros transportados no Brasil em 2025 129,6 milhões A demanda por viagens segue alta, o que mantém as milhas relevantes, mas também pode pressionar disponibilidade e preços.
Fonte da tabela: ABEMF, Abecs, Ministério de Portos e Aeroportos/ANAC e Banco Central do Brasil, com fontes completas listadas ao final.

O que mudou nos programas de fidelidade em 2026?

A fidelidade saiu do avião e foi para o supermercado

Antes, muita gente associava fidelidade quase exclusivamente a milhas aéreas. Hoje, isso mudou. Agora, o consumidor pode ganhar pontos comprando roupa, abastecendo o carro, pagando contas, comprando no mercado, assinando serviços, contratando seguros ou usando cartões parceiros.

Essa diversificação tem um lado positivo. Afinal, nem todo mundo viaja com frequência. Para quem não pretende emitir passagem, pode fazer mais sentido transformar pontos em desconto, cashback, vale-compra ou abatimento em produtos úteis. Além disso, programas de coalizão, aqueles que reúnem várias marcas em um mesmo ecossistema, facilitam o acúmulo em diferentes momentos da rotina.

Porém, existe uma armadilha. Quanto maior a quantidade de parceiros e ofertas, mais fácil fica perder a noção do valor real. O consumidor pode sentir que está “ganhando” algo, mesmo quando está pagando mais caro em um produto apenas para receber pontos.

O cartão de crédito continua importante, mas precisa ser usado com cuidado

O cartão de crédito ainda é uma das principais portas de entrada para pontos, milhas e benefícios. Em 2025, segundo a Abecs, os cartões movimentaram R$ 4,5 trilhões no Brasil, sendo R$ 3,1 trilhões apenas no crédito. Esse dado ajuda a entender por que bancos e emissores disputam tanto a atenção do consumidor.

No entanto, o cartão só faz sentido como ferramenta de fidelidade quando a fatura é paga integralmente e dentro do prazo. Caso contrário, os juros podem destruir qualquer vantagem dos pontos. Em outras palavras, não adianta acumular milhas enquanto se paga rotativo, parcelamento de fatura ou anuidade alta sem retorno proporcional.

Além disso, alguns cartões oferecem pontuação melhor, mas cobram anuidades elevadas. Outros prometem benefícios de viagem, sala VIP e seguros, mas exigem renda alta ou gasto mensal expressivo.

Portanto, antes de escolher um cartão só pelos pontos, vale comparar o custo total.

Quando os programas de fidelidade ainda compensam?

Quando você já teria aquele gasto de qualquer forma

O melhor ponto é aquele que nasce de uma compra planejada. Por exemplo: se você já iria comprar no supermercado, abastecer ou pagar uma passagem, acumular pontos pode ser uma vantagem real. Nesse caso, o programa adiciona valor sem mudar seu comportamento financeiro.

Por outro lado, se você compra algo apenas porque “tem pontos extras”, o raciocínio muda. Afinal, gastar R$ 300 sem necessidade para ganhar um benefício pequeno não representa economia. Representa consumo induzido.

Portanto, a primeira regra é simples: o programa precisa acompanhar sua vida financeira, não comandá-la.

Quando o resgate tem valor claro

Um programa compensa quando você consegue transformar pontos em algo útil, com valor fácil de comparar. Passagens aéreas, diárias de hotel, desconto direto na fatura, cashback e vale-compras podem ser boas opções, desde que a conversão seja favorável.

Uma conta simples ajuda bastante. Imagine uma passagem que custa R$ 1.200 em dinheiro. Se ela pode ser emitida por 40.000 pontos mais R$ 100 em taxas, o benefício real é de R$ 1.100. Nesse caso, cada ponto vale cerca de 2,75 centavos. Agora, se os mesmos 40.000 pontos compram um produto de R$ 250, cada ponto vale apenas 0,625 centavo.

Percebe a diferença? A quantidade de pontos é a mesma, mas o valor entregue muda completamente.

Quando você acompanha validade, promoções e regras

Programas de fidelidade não combinam com abandono. Quem esquece senha, não acompanha validade e não olha as regras tende a perder valor. A taxa de breakage, que mede pontos ou milhas expirados, mostra justamente isso: mesmo com consumidores mais atentos, ainda há saldo que vence sem uso.

Além disso, promoções de transferência bonificada podem melhorar muito o resultado. Entretanto, elas só fazem sentido quando existe um plano de uso. Transferir pontos apenas porque apareceu bônus pode ser ruim se as milhas ficarem presas em um programa que você não usa.

Quando viram apenas vitrine de marketing?

Quando o benefício parece grande, mas o custo fica escondido

Muitos programas usam uma comunicação emocional: viajar mais, viver experiências, ter acesso a um mundo exclusivo. Isso não é necessariamente errado. O problema aparece quando o marketing destaca o sonho e esconde o custo.

Esse custo pode estar na anuidade do cartão, na mensalidade do clube, na diferença de preço do marketplace, na taxa de emissão, na validade curta dos pontos ou na dificuldade de encontrar disponibilidade para resgate.

Por isso, sempre que a promessa parecer boa demais, faça a conta por trás da oferta. Além disso, compare o preço final com pagamento em dinheiro, Pix, cashback ou outro cartão sem anuidade.

Quando o programa incentiva compras fora do orçamento

Fidelidade não deve virar desculpa para desorganizar as finanças. Se uma pessoa parcela compras desnecessárias, antecipa gastos ou entra no limite do cartão apenas para acumular pontos, o programa deixou de ajudar.

Nesse sentido, é importante lembrar que pontos não são dinheiro livre. Eles têm valor, mas têm regras, validade e limitações. Já o dinheiro que sai da conta é real e imediato. Portanto, o consumidor precisa proteger o orçamento antes de pensar em status, categoria ou milhas.

Quando o resgate exige esforço demais para retorno pequeno

Outro sinal de alerta aparece quando o programa exige tempo demais. Se você precisa acompanhar dezenas de promoções, comparar vários regulamentos, esperar janelas específicas e ainda aceitar conversões ruins, talvez o retorno não compense o desgaste.

Claro, para quem gosta do assunto, esse acompanhamento pode ser quase um hobby. Porém, para o consumidor médio, simplicidade também tem valor. Às vezes, um cartão com cashback direto e sem anuidade entrega menos glamour, mas mais previsibilidade.

Pontos, milhas ou cashback: qual faz mais sentido?

Milhas podem valer muito, mas exigem planejamento

As milhas continuam interessantes para quem viaja, tem flexibilidade de datas e sabe pesquisar. Elas podem gerar excelente valor em emissões específicas, principalmente em passagens caras, trechos internacionais ou períodos de alta demanda.

Além disso, a aviação brasileira registrou forte movimento em 2025, com 129,6 milhões de passageiros transportados em voos domésticos e internacionais, segundo dados divulgados pelo governo federal com base na ANAC.

Entretanto, milhas não são mágicas. A disponibilidade muda, as tabelas podem variar, as taxas pesam e o preço em pontos pode subir. Assim, quem não viaja ou não tem paciência para procurar emissão talvez aproveite pouco.

Cashback é menos emocionante, mas mais direto

O cashback tem uma vantagem clara: o consumidor entende o valor rapidamente. Se a compra gera 1% de volta, uma despesa de R$ 1.000 retorna R$ 10. Não há mistério.

Por isso, para quem quer simplicidade, cashback pode ser melhor do que pontos. Além disso, ele combina bem com pessoas que não viajam com frequência ou não querem depender de promoções.

Por outro lado, o cashback costuma ter teto, regras de uso ou percentuais baixos em alguns cartões.

Portanto, ele também precisa ser comparado.

Pontos flexíveis podem ser o meio-termo

Programas de pontos flexíveis, especialmente os ligados a bancos, podem funcionar bem porque permitem transferir para companhias aéreas, trocar por produtos, obter desconto ou aproveitar campanhas. Essa flexibilidade reduz o risco de ficar preso a uma única opção.

Ainda assim, o consumidor deve observar a validade dos pontos, as regras de transferência e a cotação no resgate. Afinal, flexibilidade só é boa quando vem acompanhada de valor real.

Como saber se um programa compensa para você?

Faça a conta do valor líquido

Antes de assinar um clube ou pagar anuidade por um cartão premium, calcule o valor líquido:

Benefício real = valor dos resgates aproveitados – anuidade – mensalidade do clube – taxas – compras extras – pontos expirados.

Se o resultado for positivo, o programa pode compensar. Se ficar empatado ou negativo, talvez seja apenas uma vitrine bonita.

Observe seu perfil de consumo

Quem gasta bastante no cartão, paga a fatura em dia, viaja com frequência e acompanha promoções tende a aproveitar melhor. Já quem tem gastos baixos, não viaja, esquece pontos ou paga anuidade alta pode se beneficiar mais de um cartão simples, sem custo, com cashback ou desconto direto.

Além disso, famílias que concentram gastos em um único cartão podem acelerar acúmulo. Porém, isso deve ser feito com controle, não com aumento artificial de consumo.

Desconfie do “quase grátis”

Viagem com milhas não é necessariamente viagem grátis. Pode haver taxa de embarque, taxa da companhia, custo de oportunidade dos pontos e até diferença de preço em relação a uma promoção em dinheiro. Portanto, a comparação precisa considerar o valor completo.

O mesmo vale para produtos. Alguns marketplaces de pontos cobram uma quantidade muito alta por itens que custam menos em lojas comuns. Nesse caso, o resgate pode parecer prático, mas entregar pouco valor.

Vale a pena assinar clube de pontos em 2026?

Clubes de pontos podem valer a pena em situações específicas. Por exemplo, quando a pessoa já tem objetivo definido, aproveita bônus recorrentes, usa os benefícios do clube e consegue emitir passagens ou resgatar produtos com boa conversão.

No entanto, assinar clube sem planejamento costuma ser perigoso. A mensalidade parece pequena isoladamente, mas pesa ao longo do ano. Um clube de R$ 50 por mês custa R$ 600 em 12 meses. Um de R$ 150 custa R$ 1.800. Portanto, o assinante precisa perguntar: “eu consigo transformar esse custo em benefício maior do que o valor pago?”.

Além disso, não convém contratar apenas por impulso durante uma promoção. Muitas campanhas parecem urgentes, mas o consumidor deve ler prazo de permanência, validade dos pontos, bônus condicionado e regras de cancelamento.

Programas de fidelidade e educação financeira podem andar juntos?

Podem, desde que o consumidor trate pontos como parte da organização financeira, não como prêmio emocional.

Em vez de entrar em todos os programas, vale escolher poucos e bons. Em vez de comprar por impulso, vale concentrar compras já planejadas. E antes de resgatar qualquer coisa, vale comparar preço.

Inclusive, uma boa prática é revisar os programas a cada três meses. Veja quantos pontos você acumulou, quando vencem, quais resgates fazem sentido e se algum clube ou cartão deixou de valer a pena. Essa revisão evita desperdício e ajuda a tomar decisões mais racionais.

Então, ainda compensam?

Sim, os programas de fidelidade ainda compensam em 2026, mas não para todo mundo e não em qualquer condição. Eles compensam quando geram benefício sobre gastos que já existiriam, quando o consumidor entende o valor dos pontos e quando os custos ficam menores do que as vantagens obtidas.

Porém, viram vitrine de marketing quando prometem exclusividade, mas entregam conversão ruim; quando estimulam compras desnecessárias; quando escondem custos; ou quando fazem o consumidor acreditar que está economizando sem fazer conta.

No fim, a melhor estratégia é simples e pouco glamourosa: use programas de fidelidade como ferramenta, não como motivação para gastar. Se os pontos vierem como consequência de uma vida financeira organizada, ótimo. Se eles começarem a mandar no seu orçamento, é hora de parar, recalcular e talvez escolher um benefício mais direto.

Porque, em 2026, fidelidade inteligente não é juntar mais pontos. É transformar pontos em valor real.